O primeiro (Maiah)

Screenshot_20180913-012836

 

É aquele tipo de coisa que precisa de meia dúzia de cervejas (pra quem nunca bebe) pra ter ímpeto suficiente de fazer: publicar o primeiro texto. É significativo.
Resolvi publicar nossos textos.
De novo.
Depois de sei lá quantos anos.
De todos esses anos.
Jaqui nunca paramos mesmo.
A família pode descobrir quem não somos.
Alguém vai poder ler uns podres e umas coisas fofis e outras absolutamente fora da casinha.
Que “Deus, Jesus e Francisco de Paula” me ajudem a não perder o emprego. Amém.
Apresento então, a Maiah, a Sara e o Zé: os autores do que vai aparecer por aqui.

Somos muitos, há muito tempo, de muitos de nós, de todo lugar.
O primeiro.

 

Manteiga derretida (Sara)

Tablete de manteiga, derretendo e escorrendo, em cima de um pedaço de milho cozido.

Eu poderia dizer que foi na hora q ele me puxou pra dançar forró no meio da rua ao som do shot q ele mesmo cantava. Poderia dizer tb que foi na primeira vez q ele me olhou fixamente, me beijando com os olhos enquanto a gente conversava aleatoriedades, ainda ansiosos pelo momento certo pro primeiro beijo de verdade. Poderia até dizer que foi quando ele lavou minha louça, enquanto eu trabalhava no meu computador. Mas o click foi a cebola. Certamente. Eu achava que ovos com cebola era coisa só minha. Mas aí ele picou um pedaço de cebola e colocou na primeira refeição que fez pra mim, enquanto cantava alguma música animada antiga, alegremente desafinado.

Foi ali q a minha manteiga derreteu.

Alface I (Sara)

Ramo de alface, com algumas folhas murchas ou apodrecidas.

Se alguém me perguntasse como foi meu dia, eu prontamente diria: “eu tossi mais do que chorei”. Essa bronquite tá foda.
Mas esse é o ponto: ng vai perguntar. Eu levantei na cama vazia (mentira, meu cachorro tava deitado no travesseiro do meu lado por causa do frio) arrumei minhas coisas, tomei banho, ganhei um abraço (“vai ficar td bem”) carinhoso e breve da Mila por conta do horário, e fui correndo pro trabalho. Em silêncio. Tossindo. Cheguei, dei os bom dias e me escondi na minha toca. Trabalhei enquanto chorava e escolhia qual a música triste q melhor representava meus sentimentos, minha solidão, meu silêncio. Fiquei horas em silêncio, como sempre. Respondi brevemente algumas pessoas no whatsapp, imprimi folhas, ouvi Radiohead por uma, duas ou três horas. A mesma música. Perdi as contas. Desisti de fazer a videolaringoscopia hj a tarde. Tô me sentindo fraca. Vim almoçar, sozinha em silêncio, a não ser pela tosse. Escrevi num papel pra não esquecer: “decreto e permito que só o melhor e mais adequado se manifeste na minha vida”. Grifei. Passei o dia olhando esse papel. Pus na carteira. Não é a maior tristeza do mundo. Mas é triste. Sempre foi triste, a solidão. Não ter quem me traga um alface pq eu “tenho comido pouco verde”. Não comi alface hj. Ainda dói lembrar. Ainda não dá.

A menina e o touro (Maiah)

A imagem mostra a estátua de uma menina com o cabelo preso em rabo de cavalo, usando um vestido de aspecto pueril: mangas curtas, saia solta movimentada pelo vento, pouco acima dos joelhos. Mãos na cintura encarando de frente a estátua do Touro de Wall Street.

Um dia fiquei sabendo que esse touro em Wall Street simboliza a prosperidade. Dizem que tocar nele traz sorte, principalmente se tocar os culhões do touro. Na minha leitura, isso vem daquelas expressões/ideias populares que afirmam que a força vem da masculinidade (“ter culhões” x “ser mulherzinha” / “have the balls” x “be a pussy”). Mas até aí, só um dia normal num mundo que ainda diminui o sexo feminino e supervaloriza o cromossomo Y … até surgir essa menina.

Que choque, que força ela me deu.

Finalmente uma obra de arte que fez meu joelho fraquejar. Eu não posso ir lá agora tocar a estátua dessa menina, mas ela vai ficar aqui pra me lembrar que não importa o tamanho dela, ela tem que ter coragem, botar a mão na cintura, a cara no vento e peitar o touro nosso de todo dia. #FéEmDeus